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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Reflexo Inverso


Olho uma imagem refletida ao espelho e já não vejo mais a figura da mesma garotinha ingênua. Há olhos assustados e arregalados na sua face não mais angelical, olhos amaldiçoados, condenados pela perpétua culpa. Seus lábios tensos formam uma linha rígida, tão estáticos quanto seus olhos cravados a sua imagem. Reprovação. Sua testa apresentando uma singela ruga de preocupação e espanto, acompanhadas por suas maçãs do rosto levemente ruborizadas.
 Aquela figura não me intrigaria tanto se viesse de uma adolescente comum, mas havia algo na sua expressão vazia que me obrigou a parar e refletir. Um misto de decepção, arrependimento e solidão.
 A dureza oriunda da sua boca imóvel e dos seus olhos perdidos me penalizou. A dor da imagem se converteu a mim em tristeza e minha vontade era de apaziguar a melancolia daquele momento fúnebre. Alguém acabara de morrer e eu era incapaz de perceber.
 Fui tomada pela agonia e a insuportável sensação de estar presa. Não era um pesadelo do qual eu pudesse despertar, era uma deplorável realidade que não podia ser mudada. Aos poucos eu compreendia o que se passava; a triste figura, a dor, a morte, o que não pode ser mudado.
 Minhas pernas cambalearam com o choque e a estática imagem refletida se moveu. A parte boa que havia em mim não existia mais. Eu não era mais a mesma garota do início do dia anterior, pura, a menina brilhante que todos deveriam seguir o exemplo. Só agora sóbria e recuperada pude reconhecer o tamanho do meu erro e lastimar. Quem eu era havia partido junto com a minha vergonha e moral, restando apenas um reflexo do que eu nunca imaginei que seria.