E foi assim que a Sra. Spezzatti decidiu o tema do tão aguardado projeto de ciências. O assunto intrigou a todos e sua repentina mudança de planos fez com que alguns alunos se revoltassem. Assustei-me, como a maioria, ao saber que o início do projeto é individual. Cada aluno deve pesquisar ou entrevistar uma pessoa que tenha alguma deficiência ou um grave problema que a empeça de ser feliz ou que ela tenha superado. No final todos irão juntar seus trabalhos e a turma fará o projeto para o resto da escola.
Tentei prestar atenção no resto da aula enquanto recebia informações sobre deficiências e superações. Pensei em diversas maneiras de fazer minha parte no projeto, mas nenhuma saciava minhas expectativas.
O sinal anunciando o fim da aula tocou. Arrumei minhas coisas e andei pensativa pelo caminho até o ponto de ônibus. Parei e observei atentamente os acontecimentos ao meu redor.
Um bêbado com cheiro de cigarro parou ao meu lado lamentando da vida aos sussurros. Seu corpo cambaleava de um lado para o outro, quando ele abraçou um poste que ficava a menos de dois metros de mim. Penalizei-me vendo aquela triste e deprimente figura e me aproximei com a melhor das intenções.
- Com licença senhor – falei educada. Ele aparentava ter aproximadamente 33 anos. – Posso ajudar?
- NÃO! – ele respondeu grosseiramente – Ninguém pode me ajudar.
Dei-lhe um sorriso angelical e ele hesitou.
- Minha mulher me traiu – ele confessou baixinho e de cabeça baixa. – E eu amo muito ela.
Justo nesse momento meu ônibus passou. Como ele demorava um pouco, não podia perdê-lo. Lancei um beicinho para o bêbado apontando para o ônibus e ele pareceu não compreender.
- Sinto muito, preciso ir. Conversa com sua mulher e lhe dê uma chance de explicação – me despedi enquanto corria para pegar o ônibus. Por pouco não o perdi.
Durante a viagem de volta para casa, percebi que uma moça que estava numa cadeira de rodas fazia sinal. O motorista iria passar direto, mas puxei o sinal de descida para que ele fosse obrigado a parar. Algumas pessoas reclamaram do transtorno que a jovem moça causou ao entrar no ônibus e do espaço que ela ocupava. Sua atitude despreocupada chamou minha atenção. Sentei próximo a ela e resolvi puxar assunto.
- As pessoas agem sempre assim com você?
- As pessoas sempre agem assim com deficientes – ela deu de ombros.
- Como você consegue ficar despreocupada com as pessoas falando assim?
- Costume – ela riu. – A primeira coisa que aprendemos quando nos tornamos deficientes é ignorar os outros e superar as nossas limitações.
- Nossa você é um exemplo para muitos. Nem todos agem assim.
- É verdade – ela concordou. Alguns ainda precisam aprender com suas limitações.
- Posso fazer uma breve entrevista sobre sua deficiência e a maneira como você a encara?
- Claro.
Sorri enquanto entrevistava minha nova amiga e aprendia diversas coisas interessantes sobre deficiência e superação. Ela é um exemplo a ser seguido.

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