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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sonho de uma noite de primavera


Era um dia gelado para a primeira semana de primavera. O céu estava escuro e carregado, pronto para despejar suas gotas de chuva e limpar toda essa terra, apesar de ainda nem ser 16h.
Meus amigos mineiros e eu estávamos sentados na porta de um médio shopping. A ficante do tarado Paulo, Amanda, havia feito algumas compras e eu, ele e o Heitor a acompanhávamos. Heitor era o gay do grupo, então não tinha aquela história de quatro é par. Novamente eu assumia o que mais sei fazer de melhor: segurar vela. Aliás, meu apelido é poste de luz, de qualquer forma eu sempre brilho. Pelo menos dessa vez eu agradecia por ter o Heitor de companhia.
Em frente à calçada onde todos conversavam alegremente, havia um rio. Esverdeado e sereno, ele exalava um agradável cheiro de maresia. Alguns conhecidos nossos brincavam nele de se molhar tão demasiadamente que até teimosos respingos nos atingia. O mais estranho é que eles vestiam o uniforme do ensino fundamental da escola de Santana. Todos os três ou quatro.
Depois de assistir aquele momento infância na adolescência, decidimos andar. Quando passávamos pelo segundo quarteirão depois do shopping, alguém se aproximou. A pessoa andava ao meu lado, acompanhando todos os meus passos. Temi ser seguida e grudei no Heitor, quase dando o braço a ele. A pessoa insistiu e eu comecei a me preocupar. Mordi os lábios e apertei o passo, sendo surpreendida por essa mesma pessoa pousando a mão em meu ombro. Estremeci.
Dei uma breve espiada para o lado, assim como a Janete olha quem está lhe bulinando e revirei os olhos ao confirmar quem era. Um idiota, apenas um idiota. Um imbecil que fazia meu coração acelerar toda a vez que estava perto demais de mim. Um estranho que jamais falava comigo na claridade. E desde a semana em que eu decidi parar de dar moral, ele anda com a expressão de quem muito quer falar. Mas nada fala, ele nunca fala nada. Já fazia quatro semanas que não ficávamos e o mesmo tempo sem nos falarmos. Ele estava inquieto e eu dilacerada.
Um passo para o meu lado me fez ficar alerta. Ainda com a mão em meu ombro, ele me desacelerou e se aproximou do meu ouvido. Olhei para os outro, mas ninguém havia notado sua presença.
- Você já faz parte da minha vida. – mansamente ele sussurrou, acariciando meu cabelo.
Tive o árduo trabalho de normalizar minha respiração. Por dez segundos ela havia endoidado. Continuei ignorando aquela fala como se ela fosse impassível para mim, andando sem lhe dar a menor atenção.
Ele parecia indignado com a minha indiferença e mesmo assim demorou um minuto para tomar uma atitude. A atitude que sua maldita timidez sempre impedia. Contrariando todas as minhas expectativas, ele puxou meu braço e me impediu totalmente de prosseguir. Parei analisando-o, sem compreender aquele gesto. Evitei me prender na hipnose que seu rosto exercia sobre mim e demonstrar o quanto aquilo me deixava nervosa.
Olhei para trás e os outros nos olhavam, sorrindo maliciosamente. Corei, envergonhada. Paulo fez alguns gestos que optei por ignorar antes de continuarem caminhando.
Estranhei ao ver aquele idiota indo para um canto. Segui e parei a um metro de distância. Ele me fitou e eu me odiei por deliciar-me naqueles incríveis olhos verde-musgo. Mas por que será que o brilho dos seus olhos são ainda mais lindos quando encontram os meus? Controlei minha mão para que ela não caísse na tentação de tocar sua pele translúcida e seus lábios rosados. Encostei minha cabeça na parede e o contemplei.
- Por que você só fala comigo bêbado? – perguntei de repente, a revolta tomando as rédeas da minha boca.
Ele parecia sossegado quando ouviu a minha pergunta. Deu um sorriso de canto de boca que quase me enfartou e olhou para o chão, envergonhado demais para me encarar.
- Eu sabia que você iria perguntar isso – ele respondeu.
Esperei paciente que ele completasse a resposta dando alguma explicação, mas ele manteve seu olhar preso no chão. Eu sabia que ele queria me falar alguma coisa, mas não conseguia. A frase estava presa em sua garganta. Instei que ele falasse apenas com o olhar, quando percebi que sua mão tremia minuciosamente. Ele voltou a me olhar assumindo um tom sério, um misto de agonia na sua expressão duvidosa. Hesitou duas vezes ao abrir a boca.
- Eu te amo. – ele pronunciou com emoção, para o meu desespero interno. Eu poderia esperar tudo, menos aquela tão incomum frase.
Ameacei a falar, mas as palpitações do meu coração e o susto não deixaram. Minhas pernas tremiam e eu deveria me lembrar de respirar frequentemente.
Enquanto eu pensava em como argumentar contra aquela frase, ele ia para a calçada. Eu estava desnorteada, perdida nos meus confusos pensamentos e nos fortes sentimentos. Ele voltou para o canto e segurou minhas duas mãos suadas, me conduzindo para o meio da rua. A intensidade dos seus olhos junto aos meus fez com que qualquer mentira soasse como a mais bela verdade.
Ao chegar à rua, senti frias gotas de chuva em meu rosto. A cada segundo elas ficavam cada vez mais gordas. Mas eu não me importava com a chuva, estava com ele, numa rua deserta. Impiedosas, elas molhavam meu cabelo, arruinavam meu penteado e encharcavam minhas roupas. Mas para compensar ele estava à minha frente, segurando firme em minhas mãos e abrindo o sorriso mais lindo somente para mim.
Como no início de uma dança, ele me girou lentamente e aproximou seu corpo do meu me puxando pela cintura. E como no Dance in the rain dançamos com uma perfeita sincronia ao som das intensas gotas caindo na terra. Nossos rostos ficaram a milímetros de distância. Eu podia sentir seu hálito, sua mansa respiração, sua enorme vontade de tocar meus lábios com os seus.
Nossas bocas quase se tocaram. Mas eu acordei, despertei e percebi que tudo aquilo não passava de um lindo sonho. E uma frase como essa jamais será dita por ele na dura realidade, porque enquanto eu sonho com seus olhos, eles olham cintilantes para os olhos de outra.

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